A SOBREVIVÊNCIA DOS VAGALUMES ︎  


Aumente a luminosidade da tela.

2015



É nas periferias brasileiras, nas zonas opacas, nas zonas de apagamento, onde a falta é grande e a iluminação é pouca, que os holofotes da opressão se acendem com maior intensidade. Eles têm por alvo os valores, as almas, as linguagens, os gestos e os corpos do povo. Mas é quando a noite vem, quando chega a noite do desejo, que do breu discreto surgem corpos feitos de matéria sobrevivente. Corpos negros que se acendem, como vagalumes, num alumbramento intermitente por um momento de graça no meio da noite. "Clarão errático, certamente, mas clarão vivo, chama de desejo e de poesia encarnada" (Didi-Huberman1).











A Sobrevivência dos Vagalumes é um ensaio fotográfico de 19 imagens, realizado no bairro de Cajazeiras, em Salvador (BA), entre 2017 e 2019. As fotos abordam aspectos do universo simbólico e representativo dos "palozos"2, adjetivo que nas periferias soteropolitanas é utilizado para descrever uma pessoa que chama a atenção por parecer periculoso. Essa associação porta consigo um misto de risco, temor e respeito dentro da comunidade. Em virtude disso, muito jovens locais recorrem à essa estética em busca de pertencimento e auto-estima.


Em meu trabalho associo esse grupo social à imagem-poética dos "vagalumes", criada por Pasolini em 1941 para descrever as pessoas que resistiam ao fascismo com coragem e poesia. Depois, brilhantemente invocada por Didi-Huberman em 2009 no livro homônimo a este ensaio, onde ele aborda os aspectos de sobrevivência.








Os vagalumes tentam escapar como podem das luzes condenatórias que os procuram. Evitam os holofotes porque sabem que a espetacularização e o sensacionalismo atacam com voracidade as suas desgraças. A dádiva dessa existência é obscurecer toda a visão sistêmica e espetacularizada de crime e violência que os circundam para iluminar a si e à sua comunidade com suas potentes belezas marginais.


"Linguagens do povo, gestos, rostos: tudo isso que a história não consegue exprimir nos simples termos da evolução ou da obsolescência. Tudo isso que, por contraste, desenha zonas ou redes de sobrevivências no lugar mesmo onde se declaram sua extraterritorialidade, sua marginalização, sua resistência, sua vocação para a revolta". (DIDI-HUBERMAN3)





Nas zonas de sobrevivência, um banho de piscina pode ser um ato heróico; um momento com amigos, a resignação. Para conhecê-los, é preciso ir lá, observá-los no presente. Ver os corpos, os desejos, as intermitências desse povo-luz, que se acende no vale das sombras. São eles que têm fé no amanhã e, por isso, movimentam o tempo.












Ao recorrer à metáfora poética dos vagalumes para explicar os palozos, minha intenção é oferecer uma possibilidade de representação a um grupo social muito específico, que se encontra nas zonas de conflitos, nos "quases" da criminalidade. Um grupo que veste a estética do periculoso nos seus modos, gestos e corpos. E o faz em busca de pertencimento e auto-estima. Minha proposta, portanto, é entender a potência visiva desse conjunto de signos, mas dissociando-os da imagem preconceituosa construída por mídias e políticas.

Quando eu os chamo de vagalumes (com a autorização e entendimento deles para o fazer), não é porque quero oferecer uma ilustração ao livro de Didi-Huberman, mas porque reconheci nas suas metáforas uma chave de leitura útil para explicar essa realidade de um modo poético e delicado; e essa é a delicadeza que lhes é negada diariamente. Esses vagalumes são meus amigos, são vizinhos, pessoas do meu bairro, jovens comuns, pessoas com as quais convivo. Não é um olhar estrangeiro sobre o fenômeno, é um olhar de pertencimento, um olhar de reconhecimento; um olhar de cria.













É importante dizer que a série não diminui de forma alguma a violência da opressão em que eles estão inseridos e é por isso que a chamo de sobrevivência. Porém, ao obscurecer o espetáculo construído ao redor da imagem desses sujeitos, eu busco entender e compartilhar, nessa mesma obscuridade, um desejo de ser visto com admiração, essa “luz que procura nos alcançar e não consegue” (PASOLINI4). Dessa maneira quero contribuir para uma outra experiência de apreciação desse tipo de estética periférica. Essa que nos dias atuais coloca em risco a vida de muitos jovens e cujo uma contrainformação parece sempre mais necessária.








REFERÊNCIAS:
01. DIDI-HUBERMAN, G. A Sobrevivência dos Vaga-lumes (2011). Ed. UFMG, 2011. pág. 22.
02. "Palozo" é a versão soteropolitana correspondente à gíria paulista "chavoso", expressão usada nas ruas, nas favelas para representar alguém que aparenta periculoso ou propenso a chamar a atenção da polícia. Pode ser também utilizada para elogiar algo que chama muita atenção.
03. DIDI-HUBERMAN, G. A Sobrevivência dos Vaga-lumes (2011). Ed. UFMG, 2011. pág. 72.
04. PASOLINI, P. P. La sequenza dei fiore di carta (1967-1969). In: SITI, W.; ZABAGLI, K (éd.). Per il cinema I. Milan: Arnoldo Mondadori, 2001. pág. 1.095.




Série finalista no Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger.
Categoria Ancestralidade e Representação – 2019